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José Angelo Rebelo

A festa do Divino em Camboriú do pós-guerra mundial*




Fotomontagem: LP

José Angelo Rebelo
 
A declaração brasileira de guerra contra as nações do Eixo fez com que o País mobilizasse soldados para serem enviados ao front de batalha. Em novembro de 1943 foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e soldados de diferentes partes do país foram convocados para formar um corpo de, aproximadamente, 25 mil militares comandados pelo general Mascarenhas de Morais e que foram integrados ao 5º Exército Americano que atuou nos combates ao norte da Itália. Cerca de 1.500 morreram. Todos aqueles soldados ficaram conhecidos pelo nome de “pracinhas”. O primeiro contingente deles desembarcou na Itália em 16 de julho de 1944. De Camboriú foram enviados 21 soldados. Outros dois ficaram aqui na vigilância do litoral. 

O padre português Antonio Luiz Dias, que também era médico, foi vigário da Paróquia do Divino Espírito Santo de Camboriú desde 16 de fevereiro de 1939 a 19 de janeiro de 1949. Faleceu nessa cidade em 29 de maio desse último ano, aos 66 anos de idade. Pois bem, Antonio Dias suspendeu a festa do Divino quando da entrada do Brasil na guerra e o fez para evitar acúmulos de pessoa e exposição a prováveis ataques inimigos. 

Com o envio dos pracinhas camboriuenses ao campo de batalha, dona Evelina Vieira, filha de Benjamim Vieira e esposa de Ernesto Florêncio Pereira fez a seguinte promessa: se todos os pracinhas camboriuenses voltassem vivos da Itália, ela promoveria a primeira festa do Divino do pós-guerra. E orou a Canção do Expedicionário: “Por mais terras que eu percorra,/ Não permita Deus que eu morra/ Sem que volte para lá;/ Sem que leve por divisa/ Esse "V" que simboliza/ A vitória que virá.”

No dia 18 de julho de 1945 desembarcou no Rio de Janeiro o primeiro escalão expedicionário brasileiro, de onde cada um daqueles soldados partiria para suas casas. E todos os pracinhas camboriuenses voltaram vivos para seus lares. Dona Evelina então os recepcionou e falou da promessa que fizeram e pediu-lhes que a ajudasse a cumprir o que prometera, ou seja, fazer a festa do Divino de 1946. Os pracinhas, emocionados, a agradeceram e se comprometeram com ela. Foram, respectivamente, o Imperador e a Imperatriz dessa festa Oscar Angelo e Maria Aparecida, ambos filhos de dona Evelina. De Itajaí, ela trouxe a banda do “Didico” e de Florianópolis a banda do Exército, para abrilhantar os festejos. Vieram muitos participantes do interior do município e todos em carroças que ocuparam grande parte do centro e arredores da cidade. Naquela época, Ernesto Pereira tinha uma carroça puxada por quatro cavalos e seu empregado de confiança era o “Negro Nica”. Colaborando com a esposa, Ernesto fora de ônibus ao Estreito comprar, de Heitor Maikott, as cervejas e os refrigerantes para aquele festejo do Divino. Ao regressar, pediu ao Nica que fosse buscá-los com a tal carroça. Nica concordou, mas por ser analfabeto e nada conhecer no Estreito, pediu que o Oscar Angelo, menino já alfabetizado e esperto, que o acompanhasse. Ernesto permitiu e, de madrugada, ambos partiram. Carregaram a carroça e voltaram de imediato. Mas, desgraçadamente, por volta das 17h, ao subir o Morro do Encano, no Areal - a estrada antiga a Florianópolis passava pelo Rio Pequeno, Congonhas, Areal, etc - a carroça se precipitou com cavalos e tudo e lá se foram grota abaixo. Nica e Oscar tiveram tempo de saltar e nada sofreram. Das bebidas sobrou o cheiro e muitos cacos de vidro.

Aqueles Expedicionários, bem mais tarde, quando a vida de dona Evelina se findava, vieram todos a agradecê-la pelo voto que fizera por suas vidas.

 

*Informação obtida de José Ernesto Pereira, filho de Ernesto e Evelina
 

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Narrativas que resgatam parte da história de Camboriú e região, pelo historiador José Ângelo Rebelo.


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