COLUNAS



LINHA DO TEMPO

com


José Angelo Rebelo

​O dia de Finados e o vendedor de cartuchos de amendoim



Quando eu menino em Camboriú, com quatro sarrafos em cada lado e na horizontal, cobertos por chita preta, fazia-se o caixão de pobres “de cujos”. As velas caseiras, feitas de sebo, eram doadas por vizinhos à família enlutada. As flores oferecidas ao defunto pobre eram silvestres e colhidas da beira das estradas e de quintais alheios, nestes, apanhadas por velhinhas através dos sarrafos das cercas, onde espontaneamente surgiam mimo-do-Brasil, sempre-vivas, crista-de-galo, cravos-de-defunto e arnica do mato. Também poderiam ser trazidas por elas de seus próprios quintais, onde, nos banhados, nasciam jasmins e copos-de-leite e, nos pontos mais enxutos, touceiras de lírios-de-finados. Se o corpo fosse de um católico, um galhinho de arruda e uma xícara já sem a alça, talvez emprestada de alguma gaiola de um prisioneiro coleirinha, serviam bem para a aspersão do defunto com água benta. Os votos de “boa morte” não significavam morrer sem sofrimento, mas ter tempo, o moribundo, de preparar a alma para a partida. Morrer de repente era arriscar a alma a passeio incerto. Os acompanhantes do pobre cortejo fúnebre iam a pé ou em carroças emprestadas pelos compadres, ou pelo negociante mais próximo, ou, ainda, por pretensioso candidato a político. Naquela época e em todos os anos, por ocasião do dia de Finados, minha avó Emília me transformava em seu vendedor de cartuchos de amendoim torrado que eu vendia no cemitério da Vila do Garcia. Eu pressentia a proximidade desse dia dos mortos quando via meu avô Zequinha Rebelo botando alças de arame em latas de querosene, reunindo brochas e comprando cal. Dias depois ia ele e meu primo Dico carregando aquilo tudo para o cemitério, onde começariam a caiar os sepulcros para os meus dias de vendedor de cartuchos de amendoim. Por três dias se poderiam faturar: dois de véspera, que o povo usava para fazer a limpeza dos túmulos de familiares sepultados e o próprio dia de Finados, o de melhor venda. Era, pois, quando eu enchia por várias vezes a cesta de vime onde eu transportava os cartuchos. Em determinado ano minha avó testou a venda de café juntamente com os amendoins. Foi um sucesso. Os copos, com os quais eu servia o café da térmica, ainda eram de vidro que eu os lavava, depois de usados, numa das torneiras do cemitério em obediência à recomendação de dona Emília: “Dê uma enxaguada nos copos sujos”, dizia. Na verdade eu os bugueava, pois aquilo não era lavação.

Vendo passar enterros pela nossa rua, eu, pensando em meus lucros, dizia para minha avó que a cada ano tem mais gente para comer amendoim, por isso, ela teria que fazer sempre mais cartuchos. Então ela respondia: “Tu já sabes, se venderes tudo vais poder tomar uma gasosa no bar da dona Fabraca”, a proprietária de um bar defronte ao portão principal do cemitério. Era no pátio desse bar que vendedores ofereciam seus buquês e coroas de flores naturais, além de pipoca, garapa e bugigangas diversas.

O ponto mais concorrido pelos “cartucheiros mirins”, que eram ambulantes, ficava na proximidade da cruz central, onde havia muitos sepulcros de padres, párocos camboriuenses e onde os católicos devotos queimavam velas, como também o faziam ao pé daquela cruz. Em minha época de “cartucheiro” ainda se podia passar por entre as sepulturas sem pisar nelas, fato que facilitava a circulação entre a multidão. Quando no meio de aglomerado de pessoas eu ficava atento à recomendação de vovó: “Cuide com as pessoas que estão chorando para não assuarem o nariz na cesta.” E que elas simplesmente apertavam uma e outra narina com a ponta do dedo indicador, enchiam os pulmões e, por meio da que estava livre, davam uma bombada de ranho em direção ao chão. Depois dos esguichos passavam a mão na cara e a limpava na própria roupa. Ao perceber que estavam por vir tais jatos daqueles narizes chorosos, eu saltava fora e ao mesmo tempo puxava a cesta para o lado contrário daquela emissão nasal, mas quase sempre sobrava um chuvisco para mim. Lembro que vovó também dizia: “Se tiver muita gente no lado católico do cemitério a dificultar tua circulação, vá para o lado dos crentes; lá tem menos gente.” É que o cemitério era dividido por uma cerca baixa que separava as áreas para as sepulturas dos finados católicos da dos finados evangélicos. No primeiro se diziam missas e rezas; no outro, cultos e orações. Eu evitava essa empreitada da mudança de ponto de venda porque tinha que sair da dita necrópole pelo seu portão principal, alcançar a rua, e entrar em outro que dava acesso à área dos evangélicos, embora na via pública, a Siqueira Campos, também quase intransitável, pudesse vender os cartuchos. Era na hora dos cultos e missas que o povo sossegava um pouco ao parar para ouvir a preleção religiosa, momentos que eu não podia gritar: olhem o cartucho; olhem o café! Assim impedido, apenas cutucava o devoto com a cesta para que me olhasse, e pudesse oferecer-lhe minha mercadoria. Durante as cerimônias religiosas também notava que, apesar de menos gente entre os crentes, os cultos eram muito mais barulhentos que as missas. Nunca soube o que controlava os decibéis de um e de outro grupo daqueles devotos.

Com o correr do tempo, muito coisa foi mudando. Ao passar de menino para mocinho fui perdendo a vontade de vender cartuchos, fosse onde fosse; depois, as sepulturas, cada vez mais encostadas uma nas outras, cobriam totalmente aquele chão cheiinho de mortos, o que dificultava a passagem dos frequentadores daquele Campo Santo. Mais tarde, foi proibido água em vasos para as flores naturais, evitando-se assim a criação de mosquitos vetores de doenças. Tal proibição afastou os vendedores daqueles buquês, potenciais comedores de amendoim, e o que fez desaparecer o perfume que ajudava atenuar o cheiro fétido do sebo das velas acesas. As sepulturas, a partir daí, viraram jardins de flores em plásticos. Depois veio a moda da cremação dos defuntos, quando a visita em cemitério em dia de Finados perdeu ainda mais a razão de ser. Logo agora que começara a servir café em copos descartáveis de plásticos que surgiram com aquelas flores artificiais. E então vovô faleceu, o que me deixou sem a dica da proximidade do dia de Finados e, finalmente vovó o seguiu. Só me restou aposentar a sua cesta de vime onde guardei aquela velha garrafa térmica e alguns copos. Também porque, em crematórios não é conveniente a oferta de algo torrado, o que seria uma gafe ante o destino do corpo a caminho do forno de cremação.     
 

Sobre José Angelo Rebelo

Professor


Sobre a Coluna

Linha do Tempo

Narrativas que resgatam parte da história de Camboriú e região, pelo historiador José Ângelo Rebelo.


COMENTÁRIOS