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José Angelo Rebelo

A Praia de Camboriú, os Konder, os gafanhotos e os primeiros veranistas




Praia central de Camboriú nos anos 40 / Foto: arquivo histórico de BC

No início do século XX, quase dois terços da Praia de Camboriú eram de propriedade legal de Marcos Konder Netto e de Alois Fleischmann. Em 1912 toda aquela área foi transferida para a firma Konder & Cia., cujos sócios eram os acima mencionados, juntamente com Adelaide Konder. Fleischmann, então, resolveu, de sociedade com Marcos e Adelaide, naquele ano, fazer ali grande plantação de pita (Agave sisalana) para servir de matéria prima à uma projetada fábrica de cordas. Para o plantio, as sementes foram importadas da África e da Índia. No entanto, assim que a firma Konder encetou as tratativas com diversos fabricantes de máquinas na Alemanha para fornecer prospectos e orçamentos para a tal fábrica, estourou a primeira Guerra Mundial (1914 -1918) e, além do quê, toda a plantação de agave foi destruída por gafanhotos, deixando apenas algumas plantas que, ainda há poucos anos, despontavam garbosas em diversos trechos da praia. Foi assim que o inédito projeto de uma fábrica de cordas no lugar Praia de Camboriú fracassou, o que causou grandes prejuízos aos seus idealizadores. Naquela época, aquela praia era completamente deserta: existiam apenas algumas choupanas de pescadores míseros e subnutridos. Alguns anos depois, de 1925 em diante, começaram a apontar, bem no centro da praia, as primeiras casinhas de veraneio, construídas, quase todas, por blumenauenses, entre eles Jacob Schmidt, Arthur Rabe, o farmacêutico Paul Onken e sua esposa dona Lilly e outros. O alemão Gerd Scheppers levantou o primeiro hotel no lugar e aos poucos foram surgindo outras edificações modestas, mas o progresso era dificultado pela falta de uma estrada de rodagem e também de transporte. Quando o governador Adolfo Konder (1926 a 1930), mandou retificar a antiga estrada de rodagem de Itajaí a Florianópolis, começou a crescente afluência de veranistas, vindos de outras plagas, durante o verão.

Foi em 1942/43, que Marcos Konder resolveu vender aquelas terras praieiras por meio de loteamentos. Este negócio também lhe trouxe terríveis dissabores e prejuízos, por causa da chicanice de diversos compradores, ambiciosos e inescrupulosos. No ano de 1930, justamente na época da acirrada campanha política entre a Aliança Liberal e o Partido Republicano, que prejudicou os Konder, um veranista e político oposicionista de Blumenau instigou diversos pescadores e intrusos a boicotar a legitimidade das propriedades dos Konder, porém fracassaram por falta de documentos. Do atual local do ex-Hotel Fischer até ao extremo sul, onde Marcos vendeu a um certo capitalista por uma quantia irrisória (300 contos de réis) e depois, o mesmo comprador teve a ousadia de exigir a devolução do dinheiro, por causa de uns 15 metros faltantes. A parte nordeste da praia, onde fica o atual Hotel Marambaia e outros edifícios imponentes, também pertencia à família Konder. Hoje estas propriedades - norte e sul - valem muitos bilhões. A família Konder ganhou, pelas vendas do loteamento, apenas uns 600 contos de réis, que foram logo absorvidos pela construção da nova Usina de Açúcar Adelaide, em Pedra d'Amolar, Itajaí, fundada em agosto de 1922, outro empreendimento que, infelizmente, também trouxe muitos aborrecimentos aos Konder.

Como se pode notar, há os gafanhotos alados e os sem asas por todos os lugares do mundo.
 

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Narrativas que resgatam parte da história de Camboriú e região, pelo historiador José Ângelo Rebelo.


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