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"O maior erro que cometi foi fechar a Disco Laser"
Proprietário da boate que serviu de cenário para muitas histórias em Camboriú, Ovídio Kistner recorda com saudade o tempo em que ninguém precisava sair da cidade para se divertir. Fala, também, da falta que a Disco Laser fez em sua vida




Foto: Gustavo Zonta

Ovídio Kistner é o tipo de pessoa que tem histórias tão divertidas para contar que dá vontade de passar um dia todo conversando. Também pudera. Era ele o proprietário do cenário de grandes festas na cidade: a Disco Laser. Foi ali que surgiram casais, grandes amizades e brigas épicas entre os nativos e os "agricolinos", que não raras vezes culminaram em um grande "fecha-pau" na ponte. Seu Ovídio conseguia controlar os "risca--faca" que nasciam no interior da boate, e não se lembra quantas vezes colocou "agricolinos" em seu carro e os levou ao Colégio Agrícola, evitando que a diversão virasse caso de policia.

O motivo da confusão é aquele que todo mundo sabia, mas não ousava dizer na época: mulher. "O pessoal daqui ficava com ciúme, porque os agricolinos vinham de fora e a meninada 
se apaixonava", conta Seu Ovídio.

Mas nem só de rixas vivia a Disco Laser. Seu Ovídio era incumbido pelos pais dos jovens de controlar o namoro no interior da discoteca. "Quando via alguém se beijando, mandava largar. A meninada pedia 'por favor' para não contar para os pais", recorda. Apesar de prometer que contaria, Seu Ovídio era leal aos jovens e nunca dedurou ninguém.

Também tinha piedade. Se alguém arrumava confusão dentro da boate. colocava para fora ameaçando proibir a entrada do encrenqueiro durante um mês. "Na semana seguinte a pessoa ficava ali na porta e eu tinha pena, deixava entrar", conta.

Apesar do pulso firme. Seu Ovídio se orgulha de nunca tez precisado apontar o dedo para ninguém. A Disco Laser durou cerca de 15 anos no local em que hoje fica a loja Big Brás. ao lado da Igreta Matriz de Camboriú. Até hoje Seu Ovídio ouve pelas ruas histórias de fatos que aconteceram dentro da danceteria, e se arrepende de ter fechado as portas. "Se tem uma pessoa que acabou com Carnboriú, fui eu quando fechei a Disco Laser", lamenta. Apesar da tristeza e do arrependimento, a história da boate trouxe muitas alegrias para a vida do senhor de 61 anos, que olha para trás e conta como tudo começou.

Natural de Brusque, Seu Ovídio é filho de chacreiro e passou a juventude trabalhando em uma tecelagem. Foi lá que conheceu Maria Bernadete, a Dona Dete. "Foi ela que começou a me paquerar", ele garante. Ela afirma que a história foi ao contrário, mas a versão de Seu Ovídio dos fatos é bastante divertida. "Ela trabalhava com bordado e para ir ao banheiro das mulheres, tinha que passar pela tecelagem, por onde eu trabalhava", conta. "A Dete ia no banheiro umas dez vezes por dia, só para passar por mim", completa.

Foi por iniciativa dela, na versão dele, que nasceu o namoro que dura até hoje. Os dois se casaram há cerca de 40 anos e Dona Dete abraçou os sonhos do marido. Na época em que vendia as confecções produzidas em Brusque para as cidades da região, Seu Ovídio começou a circular mais por Camboriú. Havia um bar ao lado da igreja onde ele sempre parava para fazer um lanche. Certo dia, ouviu da proprietária que o boteco estava a venda. Seu Ovídio recorreu ao pai e comprou o bar. Dona Dete veio junto e assim nasceu a história da família na cidade.

No começo, a vida foi dificil. A esposa lembra de dividir com o marido uma cama de solteiro e um pequeno quartinho onde moraram. "Quando chovia, tinha que abrir guarda-chuva para ficar dentro. Quando parava de chover, umas ratazanas gigantes passavam em cima da gente", conta Dona Dete. O casal apenas resume os momentos dificeis e, juntos,riem deles. Voltam, então, a lembrar das épocas felizes.

O boteco, que tinha uma caneca gigante no centro, rodeado por caixas de som, virou uma lanchonete. Atrás, nasceu a Disco Laser. "Era um salão grande, já cheguei a colocar 600 pessoas dentro. Todo mundo dançava igual picolé. tudo grudadinho". recorda Seu Ovidio.

Ele lembra de ver a rua cheia de carros, das matinês que fazia para as crianças nos domingos à tarde e das noites que passou ouvindo o barulho da boate. "No domingo à tarde a gente fazia festa para as crianças. Era muito divertido, sorteávamos Laranjinha, bala", ele conta. "Aí tinham uns, já rnaiorzinhos, que se escondiam embaixo das mesas e ficavam para a festa que vinha à noite, para os adultos", lembra Seu Ovídio. Ele era rígido e não deixava que os menores entrassem.


A boate era tão boa que trazia jovens de toda a região. Vinha gente de Balneário Camboriu, Itajai, Brusque para aproveitar a noitada. Mas um dia, depois de uma briga no local, Seu Ovídio tomou a decisão que mudou sua vida. "Fechei a discoteca de uma hora para outra", conta. O fechamento da Disco Laser revoltou os jovens da cidade. "Cm monte de gente veio reclamar comigo, e até hoje reclamam", afirma.

Depois de dois anos parado, porém, ele resolveu voltar para o ramo e reabriu a Disco Laser em outro lugar. na avenida Santa Catarina  "Mas não foi mais a mesma coisa", reflete. A nova Disco Laser era mantida principalmente pelas excursões de argentinos. Bandas também movimentavam o salão. "Fui eu que inventei aquele negócio de festa na espuma. As outras boates vinham ver como a gente fazia", ele recorda. A casa noturna durou mais cinco anos, e então fechou as portas de vez. "O maior aro que cometi foi fechar a Disco Laser". afirma Seu Ovídio.

Os efeitos da vida na boate são sentidos ainda hoje, muito tempo depois. "Quando fechou. eu fiquei um ano sem conseguir dormir à noite. Estava acostumado a ficar acordado". ele conta.
Daniela, a única filha de Seu Ovidio e Dona Dete. que cresceu na época do auge da Disco Laser, conta que, ainda hoje, os pais falam muito alto. "Se algum vizinho escuta pensa que a gente está se matando". ela brinca. "Acho que ainda é por causa do barulho da boate", Seu Ovidio diz.

O som não saiu totalmente de sua vida. Hoje, aluga máquinas de música para bares e lanchonetes de toda a região. Reclama de enfrentar o trânsito, do crescimento das cidades e sabe que Camboriú não é mais corno antigamente.

Mesmo assim. quando questionado sobre seus sonhos, ele para, pensa, e diz: "Eu tenho um". Filha e esposa se espantam. "Se ele tem, a gente não conhece". afirma Daniela. E o pai responde: "Se não fossem vocés duas. eu abria uma discoteca de novo". A resposta surpreende. mas não tanto. 'De vez em quando ele vem com essa ideia louca", conta Dona Dete. Mãe e filha buscam argumentos para fazer Seu Ovidio esquecer a ideia. E ele repensa

A família muda de assunto. Daniela fala sobre outra paixão do pai: os animais. Em casa. Seu Ovídio tem dois cachorros e um gato. Leco, o cão mais velho, tem 15 anos e é da época da boate na avenida Santa Catarina. Seu Ovídio conta que o cachorro tinha um grande amigo: um lagarto. "Pena eu não ter feito foto, eles comiam juntos, se o Leco ia deitar na sombra, o lagarto ia junto", recorda.

O pensamento, porem. continua na Disco Laser "Foi a época mais feliz da minha vida. Tudo que eu tenho hoje, eu devo à Disco Laser, afirma. Ele conta que há dias em que se pega pensando, recorda as histórias que ja viveu e a certeza de que seu empreendimento serviu de palco para a vida de muita gente em Camboriú. Apesar da contrariedade da família. confessa em segredo que não desistiu de seu sonho: "Quem sabe, um dia".

(Perfil publicado originalmente em 17 de agosto de 2012)















 


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