ARQUIVO DO LP

A alegre casa da minha infância




Foto: José Angelo Rebelo

Por José Angelo Rebelo
 
Hoje, recentemente órfão de ambos os pais, lembrei da casa onde quando menino morei. Era simples, sem pintura e fechada por tábuas na vertical que eram alternadas por frestas. Havia apenas quatro cômodos, cuja intimidade interna era protegida por cortinas de pano, ao jeito de porta. A um deles apelidamos de sala, onde havia uma pequena mesa e quatro cadeiras coringas, ou seja, podendo ir de um lugar para o outro conforme a necessidade; a outro, alcunhamos de cozinha que, além de mobília semelhante à da sala, tinha um rústico fogão a lenha que ardia diuturnamente e uma vaza disposta na janela. Aos outros dois batizamos de quarto. Em cada uma dessas últimas divisões havia duas desconfortáveis camas providas de barulhentos colchões de palhas de milho, sob os quais, durante o dia, eram guardadas as esteiras de taboas. À noite, quando estendidas sobre o soalho, entre aquelas tarimbas, ou na sala, aqueles artefatos serviam de colchão, cujo desconforto não diferia dos daqueles nos leitos. Era por meio desses tapetes vegetais que tanto a sala, quanto a cozinha poderia ser transformada em aposento de dormir. A iluminação noturna era feita por pombocas e placas a querosene e a diurna pela luz solar que adentrava pelas janelas abertas e frestas das paredes. Atendia as necessidades fisiológicas da família uma privada de madeira instalada no fundo do quintal e escondida por touças de bananeiras. Como banheiro, uma grande bacia de alumínio que, quando fora de uso, ficava pendurada numa das paredes daqueles quartos. A cobertura da casa em duas águas, sem forro e de pouca queda, era formada por telhas de cerâmica em calha feitas nas coxas e que mal se ajustavam uma nas outras. O mau encaixe e a pouca inclinação possibilitavam o acúmulo de matéria orgânica, o que permitia que plantas de kalonche, também chamadas de fortuna, vicejassem sobre o telhado como um bosque a lhe proteger e a lhe dar vida. Sob ele, os muitos filhos de meus pais, outra riqueza.


Em dias ensolarados aquela meninada fugia para o quintal onde brincava com tudo que lhe passasse pela cabeça: carochas viravam máquinas de tração a arrastar caixas de fósforos repletas de areia; dois sabugos de milho, presos par a par por uma improvisada canga, transformavam-se em junta de bois. A caçada a libélulas, que chamávamos de besouros, pousadas em hastes de capim vegetando em banhados, era uma competição que todos participavam. É que depois de apanhadas brincaríamos com elas como se fossem aeroplanos. A brincadeira consistia no empalamento de cada uma delas com uma haste de capim, cuja inflorescência era mantida externamente. Depois de soltas voavam unidas àqueles caules, o que nos parecia espetacular. Nesses momentos, todos gritávamos: “Avião, traga um neném pra nós!” É que nos ensinaram que os bebês eram trazidos por aviões ou por cegonha, um pássaro de longo bico que não conhecíamos. No verão, durante o dia, a brincadeira preferida era a procura de “casquinhas de cigarras” deixadas nos troncos das árvores, principalmente nos de plantas de café e de ingá; à notinha, era a caça a vaga-lumes por sua bioluminescência e articulação do abdômen que apresentavam quando presos. Havia uns de rabo mole, que dizíamos ser fêmeas, que não pegávamos. Aqueles machos, quando contidos em caixinhas de fósforos ou entre os dedos, acendiam a cada estalo. Dizíamos que eles eram da família das lâmpadas, aquelas que víamos nos postes da vila. Naquela estação quente, gostávamos de olhar o céu à procura da estrela papa-ceia que andava pelo caminho do sol. Diziam-nos que no inverno ela se transformava em estrela d’alva, mas não tínhamos coragem de sair daqueles colchões de palhas para vê-la, época em que ainda geava nos gramados ou nas roupas a quarar sobre eles. Nos dias de chuva recolhíamos para o interior da casa a esperar pelas goteiras, munidos de todo tipo de vasilha, fossem panelas, bacias, baldes e até penicos. Quanto mais variado fosse o aparadouro, mais interessante ficava a orquestra formada pelo pingar, pois cada um deles emitia uma nota musical diferente. Ficávamos, então, de olho no vertimento da água sob a telha para dispor cada um dos receptáculos nos locais, sobre o soalho, camas e mesas bem no ponto em que achássemos que os pingos cairiam. A fritada dos pingos que caíam sobre a chapa quente do fogão e o acertar, ou o errar o vasilhame era a alegria da petizada, principalmente quando nos atingiam. A nossa farra irritava meu pai, às vezes presente, principalmente por não atinar a razão do encharcamento interno da casa, pois não havia telha quebrada, dizia ele. Nervoso com tudo aquilo, também dizia-nos que “dia de chuva é dia de rapaz pequeno apanhar.” Minha mãe, disfarçadamente, se divertia comparando-nos a pintos molhados.

Desconfio que fosse por saudade de meus pais que busquei aquela infância tão divertida e a tanto tempo desaparecida. Também talvez porque é que hoje meus verões não têm cigarras. Seu canto foi emudecido pelo barulho da cidade e a papa-ceia e os vaga-lumes não mais os vejo, pois seu brilho foi empanado pelas luzes urbanas. No entanto e curiosamente, essa excessiva luminosidade não me tem servido para que eu veja meus pais e assim mostrar-lhes que a nossa casa já não tem mais goteiras; que as paredes já não têm frestas e que a iluminação se dá por diodos e que os quartos são confortáveis e até a privada saiu do meio das bananeiras para vir morar conosco e num cômodo da casa que é só dela




01 COMENTÁRIO


JOSE SALOMAO KOERICH comentou em 11/07/2020 às 10h 41min

Rebelo, parabéns. Certamente muitos dos leitores como eu,reviveram sua infância ao ler este texto. O importante é que vencemos! Saímos daquela situação para vivermos novos tempos graças a GRANDE HERANÇA que nossos pais nos legaram:Dedicação aos estudos, honestidade, persistência, objetivo na vida...................


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