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Perfil de João Coppi: “a vida é dura para quem é mole”
Em 2012, João cedeu entrevista ao LP e contou sobre sua trajetória e o sucesso que fazia entre a mulherada nas domingueiras do Salão do Gustavo


Foto: Gustavo Zonta/arquivo LP

Seu João Osmar Coppi é um homem sincero. Não tem papas na língua para falar de ninguém – muito menos de si mesmo. Aos 73 anos e com uma memória invejável, conta tudo o que passou sem censurar nada. Acredita que os erros são tão importantes quanto os acertos. E fala dos seus com o orgulho de quem deu a volta por cima.

Caçula de uma família de 14 irmãos, foi criado por Henrique Coppi e Olívia Maria Coppi no Rio do Meio, na área conhecida como “Malha dos Coppi”. “Eu tive uma infância muito boa, nosso pai era um pouco rígido, mas era bom”, recorda Seu João.

O pai plantava e tinha engenho de farinha e de serra. Seu João reconhece que, entre as famílias que moravam nas proximidades, a dele era uma das mais abastadas. “Não é que eu queira me prosear, mas o meu pai era o mais riquinho que tinha por lá”, explica. Mesmo assim, a família enfrentava dificuldades. “Um carro de mola era como uma Ferrari, porque todo mundo só andava a pé. Para ir de lá até na missa aqui, a gente trazia o sapato pendurado nos dedos para não gastar a sola. Isso que o meu pai era rico. Para comprar o sapato era uma tristeza, só a cada dois anos”, ele conta.

Seu João estudou até a quarta série e se orgulha de ter trabalhado desde cedo para ajudar a família. “Criança tem que trabalhar, fazer serviço de criança. A gente debulhava milho, ia para a escola, voltava, botava capim para os bezerros. Agora isso de as crianças não poderem trabalhar, não é certo. As coisas ruins nascem ali, ‘né mana?”, afirma, e acrescenta a expressão muito usada por ele.

Admite que apesar da educação rígida, era de aprontar. “Por ser o filho mais novo, eu era meio confiadinho”, ele reconhece. Mas a vida o obrigou a mudar de postura, mesmo a contragosto. Quando o pai faleceu, Seu João se tornou o homem da casa. A família decidiu que ele cuidaria dos negócios da família. Havia ainda mais uma ordem: ele deveria se casar.

Seu João não queria seguir nenhuma das determinações. Queria ser motorista de ônibus. “Eu gostava de andar bem pronto e o motorista do ônibus estava sempre de gravata. A minha ideia era essa: andar sempre bem pronto”, ele conta.

Mas não foi possível. Desistiu da ideia e aceitou ficar em Camboriú. Mas continuava fugindo do casamento. “A mãe disse: ‘meu filho, tem que casar’. Eu dizia: ‘para que casar, mãe? Agora que a coisa está boa”, conta. Era uma questão de prioridades. E, naquela época, a prioridade de Seu João era uma só: fazer festa.
“Enquanto meu pai era vivo e eu estava em casa, eu era namorador, andador, dançador. Depois ele faleceu e eu fiquei o dono da casa, mas eu ainda queria namorar”, revela. Seu João era do tipo galanteador. “Eu era muito vaidoso, seboso, gostava de andar arrumado”, conta.

E fazia sucesso entre as mulheres nos bailes e domingueiras. “No Salão do Gustavo, tinha uma hora que era a marca da gasosa. O gaiteiro colocava um lenço branco na gaita e quando tocava a música, era a moça que tirava o moço para dançar”, explica. “Não é querer me prosear, mas eu nunca fiquei sem dançar”, completa.

Mas a pressão da família foi aumentando, até que Seu João não teve mais como fugir do casamento. Mesmo assim, fez questão de escolher uma moça bonita: Dona Olga, com quem é casado há 50 anos.

Mas a escolha não agradou a família. Olga tinha 16 anos e era professora na cidade. “A mãe disse que aquela moça não, ela tinha as unhas pintadas, andava muito decotada, era moça da cidade, que não ia dar certo”, conta Seu João.
A família de Dona Olga também não aprovava o namoro. “A gente se conhecia há bastante tempo, mas só de bailinho. E a mãe dela dizia: ‘só não namore com o João, o João é safado”, ele revela.

E mesmo assim, sem sequer avisar a moça com quem só conversava no portão, um dia Seu João decidiu. “Eu nunca tinha entrado na casa dela, o primeiro dia que eu entrei foi para pedir ela em casamento”, explica. E relata a data: “Era acostumado a ir até no portão e voltar. Um dia eu disse: ‘hoje eu quero entrar, moça’. E botaram café e eu disse que fui pedir ela em casamento. A Olga deu uma arrancada, uma patinada e foi parar correndo lá no meio da rua”.

E já que havia tomado a decisão, Seu João tinha pressa. Quando a família de Olga perguntou para quando era o casamento, ele respondeu: “Para dali uns três meses. Porque eu não quero casar, mas a mãe quer que eu case, então vamos fazer isso ligeiro”.
Depois de casados, Olga mudou-se para o Rio do Meio e fez amizade com a sogra. Era para tudo se encaminhar bem, se não fosse pelo jeito de Seu João. “Aí sabe o que deu, meu amigo? Eu caí na gandaia!”, confessa.

Com isso, veio a fase difícil. Seu João decidiu que não queria mais morar na roça e mudou-se com a família para a cidade. Naquela época, já tinha três filhos. Depois, vieram mais dois: Henrique, Gilberto, Ivan, Ivete e Junior. Seu João tinha dinheiro e comprou um posto de gasolina. Mas não soube administrar o negócio, a família e a “gandaia”. “Eu era sem vergonha, namorador e safado. Fui lá no fundo do poço”, ele conta.

Então, começou a época que ele trata como “os dez anos que não vi passar”. A família ficou na cidade, Seu João voltou para o Rio do Meio e reabriu a serraria que ficava nas terras do pai. Foram anos de muito trabalho para pagar as dívidas e poder recomeçar. E ele conseguiu. “É por isso que eu digo: a vida é dura para quem é mole”, afirma com a frase que se tornou seu bordão.

Voltou para a cidade, pagou as contas e começou novos negócios. Teve bar – onde mais tarde foi aberta a Disco Laser - mercearia e salão de baile. Conseguiu comprar o terreno e construir a casa em que mora hoje. Sempre muito popular, foi candidato a vereador quatro vezes e se elegeu duas. Na primeira, teve o mandato cassado porque faltou a três sessões seguidas, o que não era permitido.

Hoje, reconhece a importância da esposa. “Dona Olga foi uma guerreira”, afirma. Mas nas vésperas de completar 51 anos de casado, ele revela: “Eu brigo todo santo dia. Eu sou linguarudo e a Dona Olga também”.

Ninguém conseguiu domar Seu João, que teve que aprender com os próprios erros. Mas agora, há quem mande no senhor que de tão carrancudo e mal humorado, se torna engraçado: os sete netos. “Eles mandam em mim”.

No mês em que completa 74 anos, Seu João olha para trás e afirma que se sente realizado. “Eu fiz coisa bonita que nem é bom contar para não ‘gavar’. Ajudei muita gente”. Prova disso são os 38 afilhados.

Ao falar de sua vida, não faz uma triagem dos pontos positivos. E com a sinceridade de sempre, afirma: “Eu conto o lado baixo também, não adianta contar só o lado bom”. E finaliza com sabedoria: “Tudo valeu a pena porque eu conheci o peso da vida, o peso da realidade”.




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