LINHA ESPECIAL | Perfil

Silvia Mendes
Lembranças, histórias e sonhos de uma camboriuense raiz

Passava um pouco das 5 da tarde quando nossa entrevistada chegou, com seu sorriso peculiar, sob a sombra das imponentes figueiras da Praça Flávio Vieira, um dos símbolos dessa cidade. Silvia é uma nativa que nasceu no Marieta, em Itajaí, como inúmeras crianças de várias gerações, pois não havia maternidade na cidade. Silvia, sobrenome Mendes. Neta do Bem, filha da Marilda, família raiz de Camboriú. Cresceu no Areias, bairro carinhosamente conhecido também por Zaia, entre os moradores do local. Ali morou, brincou, cresceu. Até que, um dia, foi embora para Florianópolis. Mas, muito tempo antes, a pequena Sílvia vestiu as cores tradicionais do Jardim de Infância Padre Sérgio Maykot. Depois, estudou no Colégio Professor José Arantes, teve uma breve passagem pelo Cecam, fez o ensino fundamental no Recriarte e o ensino médio no Colégio Agrícola (atual IFC), onde se formou no curso Técnico em Informática.




 

A infância




Sobre a infância, no bairro Areias, ela recorda da família numerosa, com 46 primos, brincando numa Camboriú repleta de terrenos baldios. Morava com os avós, numa casa com quintal, árvores e muito espaço. Cresceu num ambiente repleto de crianças, no auge dos anos 90. A diversão era andar de bicicleta, soltar pipa nos campinhos, subir em árvores. O pasto do Ceia, pertinho da casa dos avós, era um dos locais preferidos: quem passava na José Francisco Bernardes não imaginava que ali tinha um pasto enorme com boi, vaca. "A gente brincava ali, nas árvores, corria do boi, passava embaixo da cerca de arame farpado. Brincava muto com a areia, mexendo". Sobre os costumes da época, ela relembra de uma banda que marcou sua infância: " A gente adorava ouvir Mamonas Assassinas, e hoje a gente pensa: como nossos pais deixavam a gente ouvir, mas deixavam...". Brincavam na rua até escurecer. Na pré-adolescência, iam de bicicleta para o interior. Nos anos 90, ainda acontecia o ritual que muitos camboriuenses presenciaram: ir à missa no sábado a noite e depois ficar circulando na praça. "Era um clássico pra tudo: aprontar, beber escondido, pra paquerar. A gente reclamava muito de não ter nada pra fazer em Camboriú, em termos de balada". A alternativa era ir pra Balneário. Ela confessa que não era muito chegada a festas. "Nunca foi muito meu perfil, muita gente...eu gostava de sair com meus amigos íntimos". Mas, quando saia, gostava de ir no Open, um barzinho alternativo na Avenida Atlântica, em Balneário Camboriú. Como gostava de rock, outras alternativas não a agradavam. E o Open era a única opção.

 

Silvia Jornalista




A então estudante se inscreveu "aos 45 minutos do segundo tempo" no curso de jornalismo, através do Prouni. Silvia destaca a importância do benefício: "se não fosse o Prouni, eu não teria condições financeiras de fazer uma faculdade" Chegou a passar no vestibular no curso de ciências sociais da UFSC, mas não teve condições financeiras de se mudar para capital, na época. 'Fui beneficada ao longo da vida por várias políticas públicas, do governo Lula, do PT, que foi primeiro o Prouni, que me permitiu cursar um curso superior e depois eu tive a bolsa do mestrado".

O gosto pela leitura vem da infância. Quando tinha 6 anos, um primo, o então seminarista Vânio a levou a biblioteca municipal, que na época estava instalada num prédio que hoje não existe mais, ao lado da praça da igreja matriz. Atualmente, o local abriga  a loja Sara Móveis do centro. Ela lembra da escadaria branca que dava acesso a biblioteca, no piso superior do prédio, que já foi sede da Prefeitura e Câmara de Vereadores. Fez a ficha e passou a frequentar o local toda semana, muitas vezes sozinha. A influência veio da família: sua mãe costumava ler muito em casa. Ela recorda, que aos 12 anos, viu a mãe lendo Dom Casmurro (clássico de Machado de Assis) e ficou curiosa. Marilda, sua mãe, desconversou: "esse livro não é de criança". Foi o bastante para que a pequena pegasse o livro sem que a mãe soubesse, na biblioteca, e leu escondida. Como adorava a leitura, a escrita foi uma consequência natural. Além disso, teve incentivo por parte dos professores, principalmente uma: Professora Eliane, do Recriarte. "Ela elogiava muito minha redação, dizia que eu tinha que ser escritora, que tinha que investir nisso, foi ali que começou a mexer com o bichinho assim de...ela me inscreveu em concurso de redação, foi quando ganhei meu primeiro Harry Potter...Eu sabia que gostava de escrever mas nunca imaginei seguir uma carreira".

Em meio ao turbilhão de dúvidas que permeiam a mente dos estudantes na hora de escolher uma carreira, um amigo surgiu e fez com que ela tomasse uma decisão. Fernando Assanti era, na época, um amigo do Orkut (uma rede social que fez muito sucesso nos anos 90). A amizade virtual virou uma relação de 'frequentar casa um do outro" que dura até hoje. Assanti, na época, cursava jornalismo. Faltando poucas horas para encerrar o prazo da inscrição, pediu uma opinião para o amigo, que respondeu: "Você nunca vai ser rica, mas provavelmente vai ser muito feliz". Foi o bastante para que ela fizesse a inscrição. E diz não se arrepender da escolha: "Sou muito feliz com a minha profissão, tenho muito prazer no que eu faço. Todo trabalho cansa, mas prefiro trabalhar com algo que saia naturalmente do que com alguma coisa que eu force a barra...Minha mãe sempre me dizia pra eu ser o melhor no que a gente fizer, não importa o que a gente faça. Você vai ser gari? Então vai ser a melhor gari. Vai ser garçonete? Então, vai ser a melhor garçonete, e isso me marcou muito. Então, no que eu consigo ser a melhor? Naquilo que é mais natural pra mim: em ler e escrever".




A estudante tinha uma visão romântica da profissão. Mas o tempo passou, o mundo mudou e ela percebeu que não seria mais do jeito que imaginava quando estava na academia: "O jornalismo que eu aprendi na faculdade e sonhei em fazer não existe mais. Não há mais tempo para apurar, investigar, descobrir as histórias, conhecer as pessoas. Hoje isso é muito difícil, a não ser que vcê seja uma Eliane Brum (jornalista e escritora gaúcha, vencedora do Prêmio Jabuti em 2007)  que é renomada e consegue viver com reportagens especiais, com tempo pra trabalhar. O jornalismo é ditado pela pressa. Antes, o que mais importava era a credibilidade. Hoje, parece que é a velocidade. Outra coisa que mudou muito foi o texto: parece que as pessoas perderam o fôlego da longa leitura. O meu sonho era trabalhar na Piauí, pelos textos imensos". Quandou saiu se deparou com um mercado competitivo, com poucas vagas e precarizado. Os veículos de mídia ainda não sabiam bem como capitalizar pela internet. "Hoje o jornalismo reaprendeu o papel nesse mundo". Fez muitas entrevistas, provas, processos seletivos, sem sucesso. Queria trabalhar em redação, mas não conseguiu vaga em nenhuma. Seu primeiro trabalho remunerado foi como bolsista do Monitor de Mídia (um grupo de pesquisa). Depois, trabalhou na Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Camboriú, em 2011. Essa experiência foi marcante, pois foi quando as redes sociais estavam começando a deslanchar. Várias ideias forma implementadas, como a Twitcam com a prefeita, que permitiu uma interação com a comunidade. "Na época era revolucionário transmitir uma coletiva ao vivo através do Twitter, ou a apresentação de algum evento no auditório. Foi um dos lugares que eu mais gostei de trabalhar, em virtude disso, da inovação. Foi um marco, veio muito a questão do digital, formando a profissional que eu sou hoje."

Depois da prefeitura, trabalhou numa gráfica como arte-finalista, saindo depois para cursar o mestrado. Como viu que o sonho de ingressar numa redação estava cada vez mais distante, optou por ser professora.

 

O lado intro




A timidez da infãncia não a larga. Ela confessa que tinha dificuldades, no início da carreira, a interagir com as pessoas. Entrevistar alguém mesmo por telefone, era algo muito difícil. "Eu suava litros", relembra. Ainda hoje, ao entrar numa sala de aula,ela fica tensa. Mas o nervosismo acaba quando ela começa a passar o conhecimento aos alunos. "Eu fiz teatro quando era adolescente, eu amava, por muito tempo quis ser atriz. Eu levava muito a sério, ficava nervosa, mas depois que começava, eu entrava no personagem e não via mais nada. E quando eu dou aula é assim: eu começo a falar e quando eu vejo, já passou muito tempo. E o sentimento é o de maior realização possível. É terminar uma aula e ver que o pessoal gostou, foi produtiva. Eu me realizei com a experiência da docência".




 

Empreendedora




Silvia gosta de inovar, transformar, formar projetos, ter ideias novas.

A Huna comunicação para o bem surgiu em sua vida junto com Melissa Bergonsi, sua companheira, que conheceu fazendo o mestrado em Florianópolis. Ficaram amigas primeiro e depois se tornaram um casal. Melissa idealiziu a Huna e convidou Silvia para trabalhar em alguns projetos. A concepção da agência era trabalhar com pautas leves, educativas, que promovesse a ideia de uma vida melhor. Hoje ela sente prazer em trabalhar em assessoria de imprensa. "A gente trata assessoria de imprensa como jornalismo: identificar notícia, apurar, trabalhar um conteúdo que seja útil para as pessoas e não só pra promover alguém." E os negócios vão bem: a agência vem crescendo, com o aumento do insvestimento em mídias digitais, em parte por conta da pandemia. " A gente trabalha com assessoria de imprensa e marketing digital. Apesar do ônus, foi um ano de crescimento". A Huna conta hoje com 6 colaboradores fixos. Em home office desde março de 2020, a equipe se adaptou ao teletrabalho. "Os limites não precisam ser geográficos pro nosso trabalho. Mas a sede será reaberta. Será o quartel general. Mas em formato híbrido: quem quiser vir trabalhar na sede, vem. Quem não quiser, não precisa vir, vamos continuar trabalhando com um modelo flexivel".

 

Sonhos




Jovem, bem sucedida, empresária, professora. Uma carreira construída em 32 anos de vida. E ela quer mais:

"Fazer o doutorado é um sonho que tenho e ainda não realizei. Mas estou vivendo um momento da vida que a empresa vive uma fase que depende de mim, crescendo. Então estou investindo meu tempo nela, mas eu quero muito em breve voltar pra academia, voltar a dar aula na graduação. Hoje dou aula pra adultos mas meu foco é dar aula pra jovens e...eu acho que é isso, assim. Eu não gosto muito de ter planos traçados. Gosto de ir avançando e descobrindo o que é que tem ali. Então o que me falta é descobrir qual vai ser a próxima aventura. Já mudei tanto em várias coisas na minha vida: mudei da casa, mudei de profissão, de hábitos. Não tenho medo da mudança. Só quero saber qual será a próxima aventura e curtir muito. E aprender, claro".



Fotos: Laura Testoni


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