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​Racismo estrutural e a sua construção na sociedade
A doutora em educação, a Profª Marianna Côrrea, e a modelo, Tiane Félix explicam que desde a base da sociedade brasileira o racismo se apresenta em todas as esferas sociais




Foto: Divulgação

Durante o ano de 2020, o termo “racismo estrutural” tomou grande proporção após a sequência de casos de assassinatos de pessoas negras, como: a morte de George Floyd nos Estados Unidos, assassinado por um policial branco; a morte de João Pedro, no Rio de Janeiro, um menino de 14 anos que levou um tiro dentro da própria casa; a morte de Breonna Taylor, também assassina por policiais nos Estados Unidos; e o mais recente, a morte de João Alberto por seguranças do Carrefour em Porto Alegre. 

Esses acontecimentos desencadearam uma explosão de manifestações antirraciais e levantaram discussões a respeito do racismo, principalmente o estrutural, que há anos é denunciado pelo movimento negro. 

Mesmo com esses movimentos, muitas pessoas ainda não entendem a relação dos atos de violência com o racismo, ou o que, de fato, é o racismo estrutural e como ele se manifesta na nossa sociedade. 
 
O que é o racismo? 
 

O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa define o racismo como uma “teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país ou região (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria”, ou seja, estabelece uma hierarquia entre as raças. 

Doutora em Educação, a Professora Marianna Corrêa explica que o racismo é uma forma de discriminação, ou seja, o tratamento diferenciado que repudia membros de uma raça e se manifesta em nosso cotidiano de forma explícita ou velada, consciente ou inconsciente. 

Essa discriminação faz parte da construção histórica do Brasil, isso porque se subsidia na inferioridade dos povos colonizados. Sua origem veio do papel que o negro teve na sociedade brasileira na época da colonização, ou seja, um papel de exploração. “4.8 milhões de negros e negras saíram da costa da África para a exploração de seus corpos. Os que sobreviviam à viagem de praticamente 1 mês nos porões dos navios chegavam aqui para a exploração do açúcar, inicialmente. Vivemos 4 séculos de escravidão e pouco mais de 1 século libertação. Há ainda muito chão a ser conquistado”, conta Marianna. 

A Profª Drª Marianna Corrêa explica que o racismo estrutural, mesmo que sutil, é muito cruel. / Foto: Arquivo Pessoal 

Com essa base escravocrata, mesmo após a lei áurea em 1888, as pessoas pretas não tiveram políticas públicas que garantissem seu bem-estar. Dessa forma, foram marginalizados e sua cultura vista de forma negativa, o que estabeleceu ainda mais a discriminação.

Em 1989, através da Lei Federal.7716, o racismo passou a ser considerado crime, e prevê uma pena de até 5 anos de reclusão ou multa, sendo imprescritível e inafiançável. Mas ainda assim, na prática, o racismo continua acontecendo livremente. “O nosso presente está cheio deste passado, como fala a historiadora Profa. Lilia M. Schwarcz”, cita Marianna. 
 
E o racismo estrutural? 
 
O racismo na sociedade brasileira encontra-se em sua própria estrutura, de tal forma que passamos a normalizar comportamentos que devem ser repudiados. A estudante de psicologia e modelo, Tiane Félix, explica que o racismo estrutural é aquele que se manifesta em todas as esferas sociais, independente do poder aquisitivo e status. “O racismo vem e nos desumaniza e nos desqualifica, querendo nos tornar inferiores pela cor. Nós vivemos em uma sociedade estruturalmente racista, isso significa que o racismo se manifesta em todos os momentos”, diz. 

Modelo há um ano, Tiane Felix aponta que, na moda, muitas marcas ainda não se posicionam na luta antirracista. / Foto: Arquivo Pessoal

Mariana explica que o racismo estrutural está presente em todas as esferas da vida. Desde pequenos somos expostos a ele, por exemplo na escola quando não estudamos autores da literatura negra ou quando aprendemos sobre o processo de abolição da escravatura como uma benesse da elite branca. Quando maiores, podemos perceber mais de perto a estrutura racista da sociedade, ao observar que 90% das empregadas domésticas nas novelas são negras ou quando não encontramos pessoas pretas ou pardas em cargos de poder social, sendo que 54% da população brasileira é preta ou parda. “O racismo estrutural está tecido nas práticas sociais de forma mais velada”, afirma a professora.

 Por normalizamos algumas atitudes racistas, o racismo estrutural acaba por ser mais sutil, menos evidente e identificável. Sendo assim, ele vai além de algum xingamento específico. “Nós sofremos olhares diários, pessoas brancas querendo nos dizer onde devemos estar, o nosso corpo é objetificado como aquele que serve apenas para ter prazer, mas não é digno de um relacionamento, então o racismo se manifesta em diferentes contextos econômicos e sociais”, conta Tiane. 

Segundo Foucault, o racismo é uma tecnologia de poder. Marianna contextualiza essa frase no processo de construção social, pois os grupos privilegiados, aqueles com o “padrão do colonizador europeu”: homem, branco e heterossexual, o usam para manter a população negra no seu lugar histórico: copeira, faxineira, segurança, ou seja, posições de subalternidade.

A moda, em geral, sempre foi uma área de muito preconceito, e não foi diferente na questão racial. Até poucos anos atrás, era dificil vermos modelos negras, e se víamos era um padrão mais estereotipado, como mulher com traços finos, curvilínea, cintura mais fina, quadril largo, cabelos cacheados e magra. Mas no dia a dica como modelo, Tiane aponta que algumas marcas têm se posicionado na luta antirracista e buscado trazer representatividade em suas modelos, mas a maioria ainda não pensa assim. “A maioria das marcas não buscam modelos que representem pessoas negras e outros biotipos, dizem que é difícil ou que não vendem quando na verdade não estão dispostas a mudar a nossa base social”, explica. 

Tiane atua há cerca de um ano como modelo, e iniciou de uma forma repentina, a partir disso surgiram outras marcas e propostas para trabalhar. Em sua vivência na área, nunca sofreu racismo propriamente dito, pois como ela explica, as marcas que a contratam entendem quem é a Tiane e sabem o que ela prega e acredita.  “Mas as vezes que mandei portfólio e não foi aprovado por “não ser o perfil” dizem mais sobre isso”, conta. Outras situações que falam por si só, são, por exemplo, quando chega para fazer as fotos e alguém pergunta se ela está esperando algo ou alguém. “Eu que sou a modelo, geralmente a pessoa me olha bem e fala ‘ah’”, relata.  

As redes sociais também têm dado mais abertura para que aconteçam ataques racistas, pois é mais difícil identificar o agressor. No começo deste ano, Tiane e um amigo sofreram com ataques no Instagram. Na ocasião, chegaram a apontar onde a modelo morava e a ameaçá-la. O episódio gerou impactos para a modelo. “Eu me senti revoltada e impotente, com muito medo do que a nossa sociedade se tornou. Fiquei bem insegura com os meus posicionamentos, achei que a culpa era minha”, diz. Mas através da psicoterapia conseguiu melhorar, e buscou assessoria jurídica com um advogado especialista em causas raciais que deu todo o apoio e suporte, encaminhando boletim de ocorrência e denúncias. 
 
Como combater o racismo?
 
Após a morte de João Alberto, assassinado por seguranças no supermercado Carrefour em Porto Alegre, na véspera do dia da consciência negra, 20 de novembro. Muitas pessoas assumiram um caráter negacionista em relação ao racismo presente nesse ato de violência, uma delas foi o vice-presidente Hamilton Mourão que afirmou em entrevista que não existe racismo no Brasil. 

Marianna conta que o racismo estrutural é tão sutil e perverso que muitas pessoas acreditam nessa fala e também que todas as pessoas têm as mesmas oportunidades. 

Nessa mesma semana, em Joinville, a Professora Ana Maria Martins foi a primeira vereadora negra eleita democraticamente, mas após os resultados das urnas passou a sofrer ataques e ameaças nas redes sociais. E também o caso do Gerente de loja em Governador Valadares, Bruno Mendes, que foi agredido por uma idosa que disse que negro não poderia ser gerente de uma loja grande. “Reside aí a importância de falarmos de racismo estrutural”, afirma Marianna. 

Para Tiane, a mudança tem que começar através do reconhecimento dos privilégios, a fim de não desqualificar a dor do outro, e também entender qual é o papel como pessoa privilegiado sobre o que se deve fazer para minimizar os efeitos do racismo. “A mudança começa sendo antirracista, não aturando piadinhas racistas, dando oportunidade para pessoas negras, impulsionando o seu amigo negro, dando voz para ele porque quando negros falam de racismo a sociedade entende como vitimização, então ocupa o teu lugar de privilégio para ajudar na luta antirracista”, finaliza a modelo. 

Além disso, também é necessário construir novas formas de atuação para que o negro possa ter o lugar que lhe é de direito, já que o Brasil é o que é justamente porque o povo negro ajudou a construi-lo, ou seja, nada mais justo que também possam fazer parte da nação com toda a potência, como explica Marianna. Para a professora, as mudanças serão mais incrementais do que podemos imaginar, pois é um processo difícil que mexe com os poderes. “Acredito muito em um processo político e educativo. Políticas públicas que viabilizem e deem visibilidade ao povo negro e a escola sempre como um espaço de discussão e inclusão” opina. 
 




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GERAL  |   14/01/2021 08h09